Faz hoje um ano que Sócrates caiu.
Um ano, às vezes, parece muito tempo. Principalmente, quando
os tempos são de dificuldade. Nessa altura, votámos para mudar. Mudámos de
Governo.
Estamos melhor?
Gostaria de dizer que sim, mas a verdade é que, para
milhares de portugueses, a cruel realidade do dia-a-dia diz o contrário.
Sofremos agora na pele as consequências dos devaneios, da
incompetência, da irresponsabilidade, da irrealidade e da falta de sentido de estado de muitos dos que nos governaram. Percebemos agora também a nossa quota de responsabilidade quando, directa ou indirectamente, os elegemos.
Afinal, o povo não teve sempre razão!
Estamos na humilhante condição de devedores, de
subservientes para com aqueles que tudo exigem para agora nos emprestarem o que
necessitamos para sobreviver. E muito do que nos emprestam é para lhes pagarmos aquilo que já devemos.
Percebemos que chegou o dia de pagar a despesa de estarmos
na Europa.
Prometeram-nos que, um dia, teríamos um nível de vida como
os outros da Europa do Norte. Por uns anos, ignoramos que o rei ia nu, e
assumimos uma vida assim. Pouco fizemos para criar efectivas condições para que
tal acontecesse e agora tememos que nem os nossos netos consigam pagar as
nossas dívidas.
Estávamos então melhor com o Sócrates?
Num conto de D. Quixote, com certeza que sim. Só restaria
saber quanto tempo ainda faltaria para, definitivamente, esmurrarmos a cabeça
num moinho. E se o traumatismo fosse a valer, viveríamos o resto dos nossos
dias num coma de sonhos e obras grandiosas. O problema seria que esse coma,
provavelmente, duraria pouco pois não haveria dinheiro por muito tempo para
manter ligada a máquina que o suportava.
Mas então estes têm feito tudo bem?
Não, obviamente que não. Têm até feito coisas que muitos
dos que neles votaram não esperariam.
Alguém queria perder os subsídios? Alguém
queria pagar mais impostos? E os que perderam o emprego? E os que perderam a
esperança de voltar a ter emprego? E os que foram mandados emigrar? E o enxovalho
aos funcionários públicos?
Muitas mais interrogações poderia aqui escrever. A verdade é
que estamos mais pobres e vamos ainda ficar mais pobres. A verdade é que
estamos mais distantes da Europa ou daquilo que julgávamos um dia poder atingir.
A verdade é que temos de cumprir o que assinámos e estes têm tentado fazer tudo
para o conseguir.
É claro que continuo a não compreender algumas receitas.
Porque é que é legal despedir pessoas, aumentar impostos ou tirar vencimentos e
não é legal quebrar os contratos das PPPs? E essa preocupação de emprestar
(capitalizar parece ser o termo correcto) dinheiro aos bancos quando eles
parecem não o querer? Cá em casa também fazia jeito uma capitalizaçãozita! E
essa coisa das reformas estruturais é só despedir pessoas e contratar a baixo
custo? Porque é que flexibilizar significa precariedade? E a palavra equidade
existe mesmo no dicionário? E aqui a mercearia da minha rua também não poderia ter um regime de excepção?
Já nem falo da Constituição pois essa foi para o lixo no dia
em que assinamos o memorando!
Ao lerem estas linhas alguns dirão que sinto desilusão. Mas
não. Para isso era preciso que, há um ano atrás, eu tivesse ilusões. E eu nunca
fui muito de ver o copo meio cheio. Sempre o encarei meio vazio. Por isso
achava, e continuo a achar, que era preciso pôr travão aos devaneios de quem nos levava para o
abismo.
Estava claro que os tempos iriam ser difíceis. E estão a
ser!
Agora o que me causa arrepio, para além da pobreza, é ver um
país cada vez mais dividido e em que as assimetrias são cada vez mais gritantes. Um
país dividido entre os poucos que têm muitíssimo e os muitos que pouco têm. Um país em que a Justiça continua amarrada no emaranhado de teias que produziu. Um
país que não quer a classe média mas exige que seja ela a pagar a factura de
todas as imbecilidades que cometeu. Um país que põe a nu a faceta mais horrível do capitalismo.
Não, não pensem que embarco em delírios de esquerda. Aqueles que me conhecem sabem que nunca estive para aí virado. Agora o que eu gostava mesmo é que não fossem sempre os mesmos a pagar a crise.
Sei bem que isto só voltará a mudar quando os que mandam neste mundo acharem que já atingimos o patamar de pobreza a que temos direito. O FMI não diz isto com estas palavras, mas o objectivo disto tudo é mesmo este, colocar-nos no devido lugar! Só espero que nessa altura já tenhamos aprendido a lição e não obriguemos os nossos filhos (ou netos) a estenderem a mão a esses senhores mais uma vez!
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